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Herpes labial no inverno: por que o frio desencadeia as crises e o que fazer

Uma das queixas que aparecem com mais frequência no consultório ao longo do inverno é o herpes labial. Muitas pacientes chegam dizendo que "sempre pega" nessa época do ano, como se fosse uma coincidência. Não é coincidência. O frio é um dos gatilhos mais consistentes para a reativação do vírus, e entender por que isso acontece ajuda a se preparar melhor e a agir mais rápido quando a crise começa.

O que é o herpes labial

O vírus Herpes simplex tipo 1 (HSV-1) provoca o herpes labial. Após a primeira infecção, que muitas vezes passa despercebida na infância, o organismo não consegue eliminar o vírus. Em vez disso, ele permanece latente nos gânglios nervosos da face, em estado de dormência, e pode se reativar ao longo da vida em resposta a gatilhos específicos.

Estima-se que mais de 60% da população adulta carregue o HSV-1. A maioria nunca desenvolve lesões frequentes, mas uma parcela apresenta reativações recorrentes, com episódios que podem aparecer poucas vezes por ano ou com intervalo de semanas.

Por que o inverno aumenta as crises

O frio age como gatilho de reativação por mais de um mecanismo.

Em primeiro lugar, a exposição ao frio e ao vento resseca e fragiliza a pele dos lábios. Quando a barreira está comprometida, a defesa local diminui e o vírus encontra condições mais favoráveis para se reativar.

Além disso, o inverno geralmente coincide com maior exposição a infecções respiratórias, como gripes e resfriados. Qualquer processo infeccioso que ative o sistema imunológico pode desencadear, ao mesmo tempo, a reativação do HSV-1. Por isso, é comum o herpes aparecer junto com ou logo após um resfriado.

A redução da exposição solar no inverno também tem papel. A radiação UV, em doses moderadas, tem efeito modulador sobre o sistema imunológico. Curiosamente, tanto o excesso quanto a privação de sol podem ser gatilhos. A oscilação de temperatura entre ambientes aquecidos e o frio externo, o estresse da rotina de fim de ano e a privação de sono, mais comum nessa época, completam o quadro de fatores que favorecem as crises.

Os estágios da lesão e por que o momento do tratamento importa

Reconhecer os estágios do herpes labial faz toda a diferença na eficácia do tratamento.

O primeiro sinal é a fase prodrômica: uma sensação de coceira, formigamento ou ardor localizado no lábio, antes de qualquer lesão visível aparecer. Esse é o momento mais importante para iniciar o tratamento antiviral, porque o vírus está começando a se replicar mas ainda não formou as vesículas.

Em seguida aparecem as vesículas, pequenas bolhas agrupadas cheias de líquido transparente. Depois de um a dois dias, elas se rompem, formando uma área úmida e dolorosa. Por fim, forma-se uma crosta amarelada que seca e cai ao longo de sete a dez dias.

O tratamento antiviral tópico ou oral é mais eficaz quando iniciado na fase prodrômica ou nas primeiras horas após o aparecimento das vesículas. Quem já conhece o padrão das próprias crises aprender a reconhecer o formigamento inicial tem uma vantagem real: agir nesse momento pode reduzir significativamente a duração e a intensidade do episódio.

Cuidados durante a crise

Durante o episódio ativo, o vírus é altamente contagioso. Por isso, evitar o contato direto dos lábios com outras pessoas, não compartilhar utensílios, copos ou toalhas e lavar bem as mãos após tocar a área da lesão são medidas que reduzem o risco de transmissão.

Tocar a lesão e depois levar a mão aos olhos é especialmente perigoso: o HSV-1 pode causar herpes ocular, uma condição grave que precisa de tratamento imediato.

Além disso, evite perfurar ou manipular a lesão. Essa manipulação atrasa a cicatrização, aumenta o risco de infecção bacteriana secundária e pode espalhar o vírus para outras áreas.

Prevenção de novas crises

Para quem tem reativações frequentes, algumas estratégias ajudam a reduzir a recorrência ao longo do inverno.

Manter os lábios protegidos do frio e do vento com um bálsamo com FPS ajuda a preservar a barreira e reduzir um dos gatilhos locais. Gerenciar o estresse, manter o sono regular e cuidar da imunidade geral com alimentação adequada e atividade física são medidas de suporte com impacto real na frequência das crises.

Para pacientes com mais de seis episódios por ano, ou cujas crises são muito intensas ou prolongadas, existe a opção de tratamento profilático com antiviral oral em dose baixa, tomado de forma contínua. Essa abordagem reduz significativamente a frequência das reativações e requer avaliação dermatológica antes de iniciar.

Perguntas frequentes

O herpes labial tem cura?

Não. O HSV-1 permanece no organismo após a primeira infecção e os tratamentos disponíveis hoje não conseguem eliminá-lo. O que é possível é controlar as reativações, reduzir a frequência e a intensidade das crises e encurtar a duração de cada episódio com o tratamento adequado.

Posso passar herpes para outra parte do meu corpo?

Sim, especialmente para os olhos. Tocar a lesão ativa e depois levar a mão aos olhos pode causar ceratoconjuntivite herpética, que é grave e pode comprometer a visão. Também é possível autoinoculação para os dedos (panarício herpético) ou para outras áreas da pele com barreira comprometida. Lavar as mãos com frequência durante a crise é essencial.

Protetor labial com FPS previne o herpes?

Indiretamente sim. A exposição solar excessiva é um dos gatilhos da reativação, e proteger os lábios do sol reduz esse fator. O bálsamo com FPS também preserva a barreira labial, o que diminui a vulnerabilidade local. Porém, não é um antiviral e não substitui o tratamento medicamentoso.

Quando devo procurar um dermatologista para o herpes labial?

Quando as crises aparecem com frequência maior do que seis vezes por ano, quando a lesão é muito extensa ou demorada para cicatrizar, quando há comprometimento dos olhos, quando a pessoa tem imunidade baixa por qualquer motivo, ou quando a crise não responde ao tratamento tópico. Nesses casos, o dermatologista costuma indicar o tratamento oral ou a profilaxia contínua.

Se você tem crises frequentes de herpes labial e quer entender as opções de tratamento e prevenção para o seu caso, posso ajudar na avaliação.

*Dra Juliana Fonte é uma médica especializada em dermatologia, área de conhecimento que se concentra no diagnóstico, prevenção e tratamento de doenças e afecções relacionadas à pele, pelos, mucosas, cabelo e unhas. Ela é também especializada na atuação em procedimentos médicos estéticos e cirúrgicos na área da dermatologia.

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