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Acne no inverno: por que as espinhas pioram no frio e como adaptar a rotina

Existe uma crença popular de que a acne melhora no inverno. A lógica parece fazer sentido: menos calor, menos suor, menos oleosidade. Mas no consultório, o que eu vejo é diferente. Uma parte das minhas pacientes com acne nota piora justamente nessa época, e muitas vezes não entendem por quê. A explicação está em como a pele reage ao frio e nos erros que a rotina de inverno costuma introduzir.

Por que a acne pode piorar no frio

O frio resseca a pele. Para quem não tem acne, isso é só um incômodo. Para quem tem, é um problema mais complexo, porque a resposta da pele ao ressecamento pode agravar o quadro de acne de formas não óbvias.

Quando a barreira cutânea fica comprometida pelo ressecamento, a pele ativa mecanismos compensatórios que incluem o aumento da produção de sebo. Em outras palavras, a pele oleosa que resseca no frio pode produzir ainda mais óleo como resposta. Esse excesso de sebo, associado à descamação de células mortas que o frio também favorece, aumenta o risco de obstrução dos folículos e de novas lesões de acne.

Além disso, o ressecamento provoca inflamação leve e contínua na barreira cutânea. Qualquer grau de inflamação na pele facilita a proliferação da bactéria Cutibacterium acnes, que está no centro da formação das pústulas e dos nódulos inflamatórios.

Por fim, o estresse do inverno, seja pelo frio em si, por resfriados frequentes, pela mudança no ritmo de sono ou pelo acúmulo do fim de ano, tem impacto hormonal direto sobre a acne. O cortisol estimula as glândulas sebáceas e pode desencadear ou agravar crises.

Os erros de rotina que aparecem no inverno

O primeiro erro é parar de usar protetor solar. Muita gente acredita que no inverno o sol não exige proteção, e algumas pessoas com acne aproveitam o inverno para "descansar" do protetor, achando que ele contribui para as espinhas. O protetor solar, quando de formulação adequada para pele oleosa ou acneica, não piora a acne. Já a exposição solar sem proteção, além de aumentar o risco oncológico, pode escurecer as marcas deixadas pelas lesões e piorar a hiperpigmentação pós-inflamatória.

O segundo erro é trocar o hidratante leve de verão por um creme muito oleoso no inverno, sem considerar o tipo de pele. Pele com tendência à acne precisa de hidratação, especialmente se estiver usando ativos queratolíticos ou retinol, mas com formulações oil-free ou não comedogênicas. Usar um creme encorpado e oclusivo em pele acneica pode obstruir os folículos e piorar o quadro.

O terceiro erro é intensificar a limpeza. Alguns pacientes, ao perceber a pele mais seca e descamativa, passam a lavar o rosto com mais frequência ou a usar sabonetes mais agressivos para remover a camada seca. Esse hábito agrava a quebra de barreira, estimula a produção de mais sebo e mantém o ciclo de ressecamento e oleosidade que alimenta a acne.

Como adaptar a rotina de skincare no inverno

A adaptação da rotina para o inverno, em quem tem acne, gira em torno de um equilíbrio: manter a pele hidratada sem obstruir os poros e sem abandonar os ativos que controlam as lesões.

Para isso, a limpeza deve ser feita no máximo duas vezes ao dia, com sabonete específico para pele acneica, mas sem álcool e sem ação demasiadamente secante. De manhã, uma limpeza suave é suficiente.

A hidratação precisa ser mantida com gel ou gel-creme oil-free. Ingredientes como ácido hialurônico, niacinamida e glicerina hidratam sem obstruir. A niacinamida, em particular, é uma das minhas indicações favoritas para pele acneica no inverno: ela fortalece a barreira, regula a oleosidade e tem ação anti-inflamatória.

O retinol, quando já faz parte da rotina, pode ser mantido no inverno, mas com uma abordagem mais cuidadosa: reduzir a frequência se a pele estiver muito irritada, usar um hidratante mais nutritivo na mesma noite e não combinar com ácidos esfoliantes em excesso.

Por fim, o protetor solar com formulação para pele oleosa ou acneica segue sendo obrigatório, inclusive no inverno.

Quando a acne pede avaliação e tratamento específico

A acne tem tratamento. Porém, os produtos de farmácia e os cuidados domiciliares têm um limite real, especialmente para lesões inflamatórias moderadas a graves.

Para quem tem nódulos ou cistos, ou para quem apresenta muitas marcas escuras após as lesões, o tratamento prescrito pelo dermatologista faz uma diferença que nenhuma rotina de skincare consegue reproduzir. Hoje existem opções eficazes, desde antibióticos tópicos e orais até tratamentos mais específicos como o ácido azelaico, a dapsona, o adapaleno e, nos casos mais resistentes, a isotretinoína.

Além do tratamento clínico, procedimentos como o peeling químico e a luz pulsada complementam o controle das lesões ativas e ajudam a tratar as marcas que ficam.


Perguntas frequentes

Por que aparecem mais espinhas no queixo e mandíbula no inverno?

A acne na região do queixo e mandíbula tem forte componente hormonal. No inverno, o estresse acumulado, as oscilações no sono e, para as mulheres, as variações do ciclo menstrual associadas ao frio ativam o eixo hormonal que estimula as glândulas sebáceas dessa região. Por isso, é comum ver piora das lesões inflamatórias nessa área específica nos meses mais frios.

Chocolate e alimentos gordurosos pioram a acne no inverno?

O inverno incentiva o consumo de alimentos mais gordurosos e calóricos, e alguns deles têm associação com piora da acne. Alimentos com alto índice glicêmico, como pão branco, massas refinadas e doces, estimulam a produção de insulina, que por sua vez ativa as glândulas sebáceas. Laticínios também têm associação com acne em algumas pessoas. Portanto, não é o frio em si, mas a mudança nos hábitos alimentares do inverno que pode contribuir para piora.

Posso usar esfoliante no rosto se tenho acne no inverno?

Depende do tipo de esfoliante. Esfoliantes físicos com grânulos, especialmente abrasivos, devem ser evitados em pele acneica: eles espalham bactérias e inflamam as lesões. Já os esfoliantes químicos com ácido salicílico ou ácido glicólico, usados com moderação, ajudam a desobstruir os poros e a renovar a camada superficial da pele. No inverno, a frequência de uso deve ser reduzida em relação ao verão para não agravar o ressecamento.

A acne melhora sozinha com o tempo?

Em alguns casos a acne diminui de intensidade na fase adulta, mas esperar que ela passe sem tratamento tem um custo: cada lesão inflamatória pode deixar uma marca escura ou uma cicatriz. Tratar cedo previne sequelas que são muito mais difíceis de corrigir depois. Por isso, não recomendo esperar para ver.


Se a sua acne piorou neste inverno ou se os produtos que você usa não estão sendo suficientes, esse é o momento certo para uma avaliação. Na consulta, consigo identificar o padrão da sua acne, ajustar o tratamento para a estação e indicar o protocolo mais adequado para o seu caso.

*Dra Juliana Fonte é uma médica especializada em dermatologia, área de conhecimento que se concentra no diagnóstico, prevenção e tratamento de doenças e afecções relacionadas à pele, pelos, mucosas, cabelo e unhas. Ela é também especializada na atuação em procedimentos médicos estéticos e cirúrgicos na área da dermatologia.

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